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o brechó como dispositivo político e (re)criador de memórias

O brechó é um guarda-roupas materialmente abandonado, porém, cheio de memórias e simbologias. Nele, encontramos peças que já não satisfazem certas pessoas, seja por estarem fora de “moda”, não servirem mais, pelo fato de uma pessoa ter partido (no sentido de morte ou de ruptura de relacionamento), entre diversos outros motivos. Através do brechó nós ressignificamos as peças, e com isso, ressignificamos a nós mesmos: ao meio de centenas de roupas, onde umas escondem as outras, procuramos incansavelmente até encontrar algo que nos agrade. Algo que se encaixe no nosso “eu”, na nossa forma de se vestir, nas nossas subjetividades. Poderia ser qualquer peça, mas porque procuramos tanto?


O ato de procurar ou garimpar peças em brechós é um eterno descobrimento de memórias, e com isso, criamos nossas próprias histórias e memórias. Cada visita ao brechó (mesmo se não comprarmos nada), é uma chuva de informações materializadas em cada peça. Um sapato antigo e empoeirado, um lenço estampado, um vestido de festas, um casaco de lã… Peças comuns, banais, mas que para algumas pessoas já possuíram extrema importância simbólica. O incrível é que anteriormente tal peça já havia sido usada por outras pessoas, mostrando o quanto a peça é durável e eterna, se comparada à existência humana.


Não só é um eterno descobrimento de memórias, mas também um eterno descobrimento de nós mesmos. Afinal, o que tanto procuramos? Somos seres em eterna construção, que buscamos, dia após dia, preencher as lacunas de nossa existência. Símbolos fazem parte de nosso cotidiano, nos comunicamos através deles, e é através deles que afirmamos nossa identidade, nossa forma de pensar, nosso verdadeiro ser. A moda não é mais uma forma de distinção social, como na época aristocrática (que foi da metade do século XIV até a metade do século XIX), onde a burguesia imitava a aristocracia, fazendo com que a “roda girasse” e a aristocracia mudasse sua forma de se vestir. Dando início a lógica da indústria da moda. Não temos mais “leis suntuárias” para reger quem pode vestir uma peça ou não, ou para regular o tamanho dos sapatos em relação a sua posição social e política. Porém, temos barreiras simbólicas, culturais e subjetivas que fazem com que as formas de se vestir e de adornar sejam ainda discriminadas e diferenciadas.


O surgimento do prêt-à-porter* deu início a uma “democratização da moda” no ponto de vista de muitos estudiosos, fazendo com que roupas sejam vendidas em grandes quantidades, barateando o custo da produção. Porém, a “democratização da moda” teve muitos efeitos colaterais: grandes produções que precisavam ser feitas rapidamente, ocasionando o barateamento da mão de obra, a terceirização da mão de obra (costureiras a domicílio), a diminuição da qualidade das peças das roupas (fazendo com que as pessoas tenham que comprar mais peças do que o normal), o desrespeito com o meio ambiente e as populações tradicionais onde as fábricas se localizam, entre diversos outros fatores.


Desde a Revolução Industrial muita coisa mudou em relação aos meios de comunicação, de tecnologia, de vestuário. Novos nomes, novas formas de expressar nossas subjetividades, novos campos. Mas uma coisa ainda não mudou: a forma com que nossas roupas são produzidas. As fábricas continuam tendo sua base de produção a partir da dicotomia “máquina de costura / costureira”.

A moda foi “democratizada”, mas os trabalhadores continuam pagando pelo verdadeiro preço da moda, enquanto os consumidores pagam um preço simbólico pela veste que lhes cobrem. Não devemos nos vestir com roupas sujas de sangue, devemos nos vestir com roupas sujas de memórias, de simbologias e de histórias. O brechó é um primeiro passo para subverter e manifestar nossa posição política e social em relação a produção de moda atual, e com isso, ainda ganhamos boas histórias para contar. *nota: Worth (1825-1895) foi o primeiro costureiro a dar início a tal forma de venda, em meados do século 19, na França. Na época, eram os clientes quem escolhiam e encomendavam os modelos de roupas que desejavam, mas Worth modificou a forma com que ele se relacionava com o cliente, fazendo com que o costureiro tivesse maior autonomia no trabalho. Ele criava modelos e deixava-os expostos em sua loja, o cliente poderia escolher a peça que desejava e fazer pequenas modificações.


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